Representantes de entidades governamentais e não-governamentais
instaladas nas regiões Norte e Ibiapaba estiveram
reunidos, na última quinta-feira, no auditório
da Casa de Cultura deste Município para discutir
à proposta do Fórum Estadual pela Erradicação
do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador
Adolescente no Ceará (Feeti-CE).
Neste encontro foi abordado tema sobre a instalação
do 2º Fórum Regional de Combate ao Trabalho
Infantil, com abragência em 43 municípios,
sendo 29 deles integrantes da área de jurisdição
da Vara Trabalhista de Sobral (região Norte)
e 14 da de Tianguá (Ibiapaba). Segundo o procurador
do Trabalho Antonio de Oliveira Lima, a iniciativa é
resultado da série de seminários promovida
pelo MPT em maio último, nas diferentes regiões
do Estado. O 1º foi instalado em 30 de julho último
em Limoeiro do Norte, abrangendo 36 municípios
das regiões jaguaribana e sertão central.
Para cada um dos 43 municípios, foi enviado convite
e sugestão para que o gestor encaminhe um representante
de órgão governamental e outro de órgão
não-governamental. Antonio de Oliveira Lima ressalta,
porém, que o evento é aberto a todas as
entidades interessadas em contribuir para a erradicação
do trabalho infantil na região, mesmo que não
tenham sido convidadas.
"As entidades governamentais e não governamentais
com atuação nos municípios poderão,
reunidas, dar importante contribuição
à erradicação do trabalho infantil
no Ceará. Por vivenciarem cotidianamente a realidade
de seus municípios, elas estão aptas a
apresentarem um diagnóstico do problema em cada
uma destas, cidades e a sugerirem medidas mais adequadas
tanto para a prevenção quanto para o combate
a este grave problema social", avalia o procurador
Olivieira Lima. Ele explica que a idéia é
utilizar a experiência do Feeti-CE como balizador
da ação do fórum regional. Assim
como o Feeti, a idéia é que o fórum
regional se reúna mensalmente e eleja uma coordenação
colegiada (formada por representantes de órgãos
governamentais e de ONGs).
O papel do Fórum é articular políticas
públicas que visem proteger o trabalhador adolescente
e garantir-lhe o cumprimento da legislação
trabalhista, além de evitar a exploração
do trabalho infantil. Através de ações
de sensibilização da comunidade em geral,
o Feeti tem contribuído para alertar a sociedade
sobre os malefícios do trabalho infantil à
saúde (física e psicossocial) da criança
e à formação dos futuros trabalhadores
(que tenderá à reprodução
do ciclo de pobreza em que vivem).
No mesmo evento, o procurador do Trabalho apresentou
aos participantes os dados mais recentes da Pesquisa
Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad), do IBGE,
sobre trabalho infantil (referentes ao ano de 2007).
Em 2006, o número de crianças e adolescentes
explorados no trabalho no Ceará era de 330 mil.
Em 2007, o número havia baixado para 296,5 mil.
No Brasil, eram 5,1 milhões em 2006 e 4,8 milhões
em 2007. Antonio de Oliveira Lima também falará
sobre o Programa de Educação contra a
Exploração do Trabalho de Crianças
e Adolescentes (Peteca), lançado recentemente
numa parceria entre o Ministério Público
do Trabalho, União dos Dirigentes Municipais
de Educação (Undime) e Universidade Federal
do Ceará.
O Fórum regional instalado em Sobral terá
abrangência aos seguintes municípios -
Região Norte - Sobral, Acaraú, Alcântara,
Amontada, Barroquinha, Bela Cruz, Camocim, Cariré,
Chaval, Coreaú, Cruz, Forquilha, Granja, Groaíras,
Irauçuba, Itarema, Jijoca de Jericoacoara, Marco,
Martinópole, Massapê, Meruoca, Miraíma,
Moraújo, Morrinhos, Mucambo, Pacujá, Santana
do Acaraú, Senador Sá e Uruoca.
O Estado do Ceará é o 9o colocado no ranking
nacional em relação à exploração
do trabalho de crianças e adolescentes, proporcionalmente
à população nesta faixa etária
em cada Estado.
DIFICULDADES E PREJUÍZOS DO TRABALHO INFANTIL
* Por ser desenvolvido dentro de casa, o trabalho infantil
doméstico é difícil de ser fiscalizado
e erradicado. É uma prática comum nas
famílias das crianças e adolescentes envolvidos
na atividade: 40% das mães foram ou são
trabalhadoras domésticas
* Entre os sintomas físicos e psicológicos
ocasionados pelo trabalho estão dores na coluna,
principalmente nas adolescentes que trabalham como babás,
e depressão, porque o tempo livre é vivido
no mesmo ambiente em que se trabalha
* A maioria das crianças e adolescentes que exercem
atividades domésticas são meninas, negras
ou pardas, começam a trabalhar entre 10 e 12
anos, trabalham mais de 8 horas/dia em troca de casa
e comida ou de salários em torno de R$ 60,00.
Muitas são vítimas de maus tratos e abusos
* Algumas das famílias "empregadoras"
consideram que estão realizando "uma obra
social". Eis outra dificuldade para erradicação
dessa forma de exploração do trabalho
infantil: a cultura que aceita o trabalho doméstico
de crianças como algo normal
* A exploração sexual de crianças
e adolescentes se dá com muito mais freqüência
no âmbito domiciliar do que em estabelecimento
de terceiros.
* O ingresso de adolescentes no tráfico de drogas
é cada vez mais precoce, a partir dos 13 anos.
Esses adolescentes, em sua maioria, são oriundos
das famílias mais pobres de favela, têm
escolaridade abaixo da média brasileira, casam-se
bem mais cedo que os jovens de sua idade e moram com
cônjuge. Entre os motivos que os levam a ingressar
no tráfico estão a busca de dinheiro,
de prestígio, de poder e adrenalina. As razões
para a permanência são as amizades fundamentais
construídas dentro do tráfico e o fato
de estarem visados por grupos rivais e pela polícia.
Por Wilson Gomes